A 89 Rádio Rock de Goiânia organizou, este ano, mais uma live com duração de 24 horas para o mundial do rock. Eu fui escalado para ocupar as horas finais da transmissão e, ao meu lado, teria Beto Cupertino (Violins) e Luis Feitoza. A coisa aconteceu mais ou menos assim: o Luis viu o Beto e já lançou uma sequência de elogios, enquanto o Beto, que é tão discreto, mas tão discreto, que mesmo sendo enaltecido por outro músico mantem a modéstia de um rockstar maduro e acostumado.
Depois de mais de duas horas de conversa, resolvi gravar uma entrevista com o Beto. Meu interesse partiu da história do Violins com os tempos de rock independente em Goiânia, e claro, a importância dessa figura discreta para o movimento cultural e musical da cidade.
“A banda surgiu em um momento muito interessante do cenário independente local, com os festivais crescendo e se tornando referências nacionais. Lembro que nosso sonho inicial era poder tocar no Goiânia Noise, era nosso objetivo inicial da banda. E foi muito legal que já no segundo ano da banda a gente foi convidado pra tocar e começamos ali um relacionamento com a Monstro que dura até hoje”, explicou o Beto.

Segura o fôlego e acompanha a cronologia: O Violins surgiu em 2001, de forma independente. A banda possui em sua discografia nove álbuns e um recente EP. O Correio Braziliense colocou “Wake Up and Dream” entre os 10 melhores discos de 2002. Em 2004 os portais de notícias locais e nacionais colocaram o Violins como uma das bandas mais importantes do cenário. E em 2007 o álbum “Tribunal Surdo” foi eleito um dos 25 discos brasileiros mais importantes pela revista Rolling Stone. O sexto álbum, “Greve das Navalhas”, ultrapassou a marca de 20 mil downloads. Após este lançamento, Pierre Alcanfor, baterista original, deixou a banda, sendo substituído por Fred Valle. Com Fred na bateria, a Violins lançou seu sétimo álbum, “Direito de Ser Nada. Veio a década de 2010 e o Violins lança mais dois EPs.
Já em 2023 a banda lançou o single “Sossego Tenso”. Em 2024 veio o EP “Quase Metade”, além de um show sinfônico acompanhado pela Orquestra Filarmônica de Brasília, na Concha Acústica de Brasília. Apoiada pelo selo Monstro Discos, a Violins lançou este ano um LP comemorativo do álbum “Direito de Ser Nada”, marcando o primeiro disco da banda em formato de vinil. Ufa!
2007 foi um ano intenso para a cena alternativa de Goiânia. Há 18 anos atrás tínhamos o Martim Cererê como nossa MTV, onde se determinava normas de vestimenta, linguagem, arte, cultura em geral, e o Violins era o grande nome do rock alternativo. O Beto, modesto que só, aposta na força da aldeia:
“Acho que estivemos inseridos dentro de um contexto coletivo, em que várias bandas estavam ativas e produzindo freneticamente, então o Violins representava uma bandeira de certo estilo de indie rock nessa cena, nós estávamos nessa cota, e de certa forma ajudávamos a completar um todo, com o nosso estilo de fazer música. Tínhamos bandas de diversos estilos que compuseram esse coletivo, todas elas deram sua contribuição e tiveram importância nessa efervescência cultural que marcou o fim da década de 90 e os anos 00”, observa.

E eu estava lá, com meu cinto de spikes, munhequeira, tênis encardido e maquiagem. Existia uma pluralidade na vestimenta, assim como na troca cultural. Não tinha smartphone, não fazíamos buscas instantâneas. Lembro de participar de rodas de conversas e anotar livros, bandas, filmes em um caderninho que guardava no bolso. Não era um comportamento isolado, todos estavam sedentos pela diversidade. O Beto me conta que esse movimento inspirador ainda existe, claro que em um movimento completamente diferente:
“Recentemente mesmo ouvi o novo disco do Boogarins e é um disco inspirador, que nos instiga a criar também. Eu pessoalmente como compositor estou sempre buscando essas provocações sadias, e ultimamente tenho procurado ouvir mais música, pesquisar mais coisas novas, que é algo que eu tinha parado de fazer nos últimos anos. Sempre fui um pesquisador no passado e a vida foi passando e me deixei cair numa certa letargia, mas recentemente tenho sentido em mim essa força novamente, essa vontade de ouvir novos sons, buscar me inspirar na luta criativa de todos”.
E quando o vocalista da Violins se inspira, se força a criar, nós, os fãs, que saímos ganhando.
Uma das formas de conhecermos bandas novas era através das revistas. Um exemplo é a “Outra Coisa”, revista do Lobão que chegou a lançar a Réu e Condenado ou Mombojó. Como gancho inspiratório, o pessoal de Goiânia também lançou a “Decibélica”, revista que trazia sugestões, críticas e até o Cd de alguma banda. Durante a live de comemoração ao Dia Mundial do Rock, eu e Beto comentamos sobre isso. Relembramos nomes potentes da cena alternativa, como Valentina, The Computers e minha preferida: a The Ugly.
Acontece que o Beto, além de mestre em filosofia e docente lá no passado, é servidor de carreira do estado de Goiás. A música para ele é afeto e potência, e, em algum momento ao longo dessa trajetória, ele soube exatamente onde a banda poderia chegar. O Violins, como todo seu histórico de consagração e influência, hoje é composto por músicos que trilham este caminho sem sufoco ou desespero. Mesmo sabendo disso, questionei o Beto sobre os altos e baixos da banda ou momentos de desistência:
“Aconteceu algumas vezes sim, como quando o Leo, nossa segunda guitarra, saiu da banda. Mas decidimos após algum tempo seguir só com uma guitarra. A banda hoje faz menos shows e ensaios, por conta da vida pessoal de cada um, mas buscamos sempre manter a banda viva, com projetos novos, fazendo alguns shows, gravando novas músicas. Pretendo que assim continue por muito tempo”.
E eu, que adoro chamar o Beto de modesto, fiz o músico filósofo falar sobre o sentimento de ser uma referência em Goiânia:
“Isso é motivo de muito orgulho pra gente e para mim em particular como compositor. É sem dúvida algo que não imaginamos em nossos melhores sonhos, como disse, que era dentre eles a mera oportunidade de tocar num dos grandes festivais da cidade”.
Assim como aconteceu no dia Mundial do Rock, quando o baterista da Can Sad, o Feitoza, viu o Beto e contou que tinha todos os cds, quem é de Goiânia e viveu a cena independente do rock n’ roll na capital sabe o que significa o Violins:
“Fico muito emocionado sempre que algum integrante de uma banda nova vem até mim e diz que o Violins foi uma influência, que nossos discos significaram alguma coisa na busca pessoal de cada um deles. É um sentimento muito bom de que tudo valeu a pena”, conclui Beto Cupertino.
Atualmente a Violins é composta por Beto (voz e guitarra), Thiago (baixo), Pedro (teclado) e o Fred (bateria). Os Cds do Violins são: Wake up and Dream (ep) – 2001; Aurora Prisma – 2004; Grandes Infiéis – 2005; Tribunal Surdo – 2007; Redenção dos Corpos – 2008; Greve das Navalhas – 2010; Direito de Ser Nada – 2011; A Era do Vacilo – 2018 e Quase Metade (ep) – 2024.
Breno Magalhães é jornalista e locutor da 89 Rádio Rock de Goiânia, músico frustrado e cineasta de fita crepe.