Parte 1: 30 anos de Goiânia Noise e a história do lugar mais enigmático do rock nacional

Adoro repetir a história de como conheci o Centro Cultural Martim Cererê. Claro que uma lembrança de 22 anos atrás possui ruídos, mas a essência do impacto, emoção e experiência daquele dia nunca saíram da memória. Não foi exatamente no mesmo dia que decidi que seria jornalista, mas ao longo das idas ao Martim, essa vontade foi se estruturando. Lembro que numa tarde, vi uma trupe de teatro fazendo malabares e declamando poesia no teatro aberto do Cererê. Quando a noite chegou, eles foram embora e um pessoal vestido de preto, com muitos piercings e tatuagens fizeram um espetáculo em que quebravam lâmpadas contra o corpo, se cortavam com os cacos e realizavam Suspensão Corporal através de cabos de aço. Eu não sabia que palhaço podia chorar e que era possível enfiar um gancho de ferro no corpo e sorrir!

Depois desse dia nunca mais deixei de frequentar aquele lugar, uma espoleta explodiu na minha cabeça. Veio o primeiro Goiânia Noise. A sensação de entrar no teatro e descobrir uma banda que você nunca tinha escutado. Andar pelos espaços do Martim analisando os shows. Observar a moda, linguagem, expressões, cortes de cabelo, atitude, movimentos de dança, gírias, tudo ali ditava regras e normas culturais. Nos 30 anos de Goiânia Noise Festival, um bom tempo depois da minha primeira vez neste evento, o Mao, vocalista do Garotos Podres me lembrou algo essencial, “poucas pessoas sabem, mas existem caixas d’aguas abandonadas dentro do Martim Cererê que foram usadas como espaços de tortura na época da ditadura”.

Na direita, José Rodrigues Mao Júnior, mais conhecido como Mao é vocalista e professor universitário, sendo um importante membro do movimento punk no Brasil. Na esquerda Alberto Rinaldi guitarrista do Garotos Podres.

Aqui seria o momento ideal para começar a descrever os quatro dias de Goiânia Noise Festival 2025, detalhes importantes do evento como o retorno da Valentina, uma das bandas mais marcantes da cena alternativa dos anos 2000 em Goiânia ou o show da Carne Doce fechando o primeiro dia de evento. A Ousel e uma melodia que fez todos do teatro movimentar. Teve a Tess do Rio Grande do Sul que incendiaram tudo com o clássico rock gaúcho e suas palavras de ordem terapêuticas (algumas cervejas e risadas no backstage rolaram e talvez teria espaço para um único texto só sobre o diálogo insano com esses camaradas).

Foto Ricardo Gomes: Salma vocalista da Carne Doce.

Esse texto poderia ter a estrutura de um Diário de Memórias, mas como a própria essência do Goiânia Noise Festival, é impossível descrever a experiência do evento em uma ordem cronológica exata, até porque no rock n’ roll o limpinho, certinho e bonitinho, são violações gravíssimas na execução.

De quinta a domingo a sensação diária ao caminhar pelo Martim foi a mesma de 22 anos atrás, conhecer, descobrir, aprender, se empolgar. A diferença é que agora estava no camarim das bandas. Batendo papo de backstage pré e pós show. Descobrindo os cansados, entusiasmados, mal humorados, divertidos e simpáticos.

A banda foi criada pelo cantor, compositor e músico gaúcho Daniel Tessler (o cara de verde).

Como este texto possuí características claras de esquizofrenia jornalística, vou dar um pulo para o último dia, o João Gordo do Ratos de Porão, fechou o evento e quando invadi seu camarim pedindo uma entrevista ele me disse “me ajude a ficar de pé”, lá estava eu ajudando um ícone do Punk Rock mundial a se levantar do sofá para me conceder uma entrevista. Precisava quebrar o gelo, era o quarto dia de evento, todos, TODOS estavam muito cansados, o clima era feroz, o segurança não deixava nem o pessoal credenciado entrar, nós da imprensa vivíamos verdadeiras acrobacias sociais para conseguir o conteúdo necessário, o João percebeu o clima.

Quando aquele camarada de quase 1,90m parou ao meu lado, fiz questão de começar com uma piada. Deu certo, quebrei o gelo. Foi uma piada política, do jeito que ele gosta, depois de um longo discurso ele começou a falar da importância do evento “o rock não morreu, a prova disso é o Goiânia Noise”. O show do Ratos fechou o Noise, música de gente grande, de quem já tocou no mundo inteiro, de quem sabe fazer uma multidão inteira bater cabeça, e o João como uma entidade, pulou dançou, confrontou, não parecia o mesmo corpo de antes.

Mesmo que esta narrativa maluca vai e volta no tempo, enquanto escrevo minha mente vai me entregando arquivos engavetados, como por exemplo o Rogério Skylab chegando no festival, tomando um café (sem açúcar) com toda sua calma e paciência. Fui o último a entrevistá-lo, me preocupei se ele já estava cansado de tanto falar, ele me confessou no ouvido “eu adoro falar”. Questionei o Rogério porque tinha tantos adolescentes esperando por ele? Qual era o padrão estético que atraia a juventude para o show dele. Disse não saber: “meu pensamento é muito parecido com o de Nelson Rodrigues, ‘jovens envelheceivos’, então não estou muito preocupado com a estética da juventude”. E eu com essa bela levantada do Skylab, invocando o anjo pornográfico para o debate, não podia deixar de cortar essa bola, logo citei o velho Nelson “Já que citou o mestre, você também é um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura, Rogério?” e ele, esguio como um conto rodriguiano respondeu “o Nelson tinha uma moral pela sexualidade, eu não, eu sou completamente imoral”. Obrigado Rogério Skylab pelo breve papo.

Uma prosa sobre a vida como ela é com Rogério Skylab

Quem mais ainda cabe neste texto? Layse e os Sinceros que vieram do Pará, e tocam o que denominam de “rock doido! A gente chama assim”. Fizeram todos dançar ao som de um brega rocker samba, não sei bem, mas ela que sem dúvida é uma das pessoas com melhor controle de palco que passou por esse festival. Layse no alto da sua bateria, cantando, conduzindo, com discursos fortes e todos os Sinceros sendo comandados por ela. Teve também o Porno Massacre que foi o nome mais citado nos bastidores, “que showzão” e realmente, que showzão, eles dizem que tocam drag punk/queercore, eu vi uma vocalista passeando por todo o teatro, com “seu guarda-chuva-de-piroca”, letras selvagens e sexuais e uma plateia inteira em choque com tanta energia.

Direto do Pará, Layse e os Sinceros fazendo TODOS dançarem no Noise.

São quatro dias de show, com muitos nomes, o autor perdeu o fôlego, preciso olhar minhas fotos, vídeos, anotações, seria injusto esquecer ou não citar todos. O estúdio central produzia um álbum da Monstro Discos em tempo real, outro nome de importância que tem como líder o Márcio, que toca no Mechanics, que é responsável por tanta coisa, ufa. E os Léos (Bigode e Razuk) que fizeram a coisa acontecer?

Na segunda parte… o encontro ancestral com o Black Pantera, como foi que o Beto do Violins me contou segredos sórdidos do Noise, o Thunderbird me deu uma aula sobre rock brasileiro e minha companheira Camila Egle que teve a mesma impressão do Martim Cererê que eu tive 20 anos atrás.

Com os almanaques musicais Paulo Zinner e Luiz Thunderbird.

Breno Magalhães é jornalista e locutor da 89 Rádio Rock de Goiânia, músico frustrado e cineasta de fita crepe.

Compartilhar

WhatsApp
Telegram
Facebook
X
LinkedIn
Email